É sabido de todos os que lavam a roupa que as meias tem tendência para desaparecer na máquina. Tive, há uns tempos, uma revelação que me atrevo a classificar como genial: se calhar passa-se o mesmo com as cuecas, mas como não têm par correspondente ninguém dá pela sua falta. Enquanto matutava nisto, lembrei-me também de que é estranho chamarmos "par de cuecas" a uma singular cueca.
Pareceu-me que com estes dois ingredientes conseguiria compor uma excelente história. Infelizmente, por mais que tentasse, não houve nenhuma versão com que ficasse particularmente satisfeito, mas reproduzo abaixo um rascunho que não deixa de ter alguma piada.
Era uma vez uma cueca preta. Esta cueca, como é hábito das cuecas, vivia na gaveta de um armário. Não gostava de aventuras e tinha em geral uma vida calma: passava a semana a repousar, até chegar a sua vez de entrar em ação, e depois era lavada na máquina. Aquilo que mais a incomodava era o cesto da roupa suja - era obrigada a conviver com outras roupas igualmente mal-cheirosas, até chegar a lavagem. Mas a espera era proveitosa, porque se seguia a sua parte favorita: a lavagem na máquina, que consistia num belo banho de água quente seguido de massagens na centrifugadora. Era, tudo considerado, uma cueca bastante feliz e respeitada.
A cueca vivia a sua boa vida já há uns meses quando se deu o desastre: num belo dia de primavera, a cueca revirava-se na máquina de lavar, regojizando com a perspetiva de apanhar sol no estendal, qual lagarto, quando ficou presa num canto do tambor. Ah, perdição! Por mais que tentasse não conseguia soltar-se. Quando a lavagem acabou, o dono abriu a porta da máquina, retirou a roupa e não reparou na cueca, enfiada no seu cantinho!
Foi assim que começou o período mais negro na vida da nossa cueca. A semana, em vez de ser passada no conforto da gaveta, era passada na solidão do tambor da máquina, escuro, frio e húmido. Esta solidão prolongou-se durante semanas, e a cueca começou a perder a racionalidade. Falava sozinha, e as outras roupas, nas suas breves passagens pela máquina, começaram a escarnecer dela. Chamavam-lhe, em tom de gozo, par de cuecas.
Esta infeliz aventura, como quase todas, chegou ao fim. Não há nada de particularmente glorioso neste final: o seu humano reparou na cueca, entalada no canto, e depois de alguns puxões - diga-se de passagem que muito a magoaram - conseguiu soltá-la. Pouco mais há a dizer, a não ser notar que ela nunca mais se livrou da sua alcunha de par. Não há nesta história qualquer moral, porque se trata apenas de uma sucessão de acasos, mas peço-lhe a si, leitor, que da próxima vez que chamar a uma singular cueca "par de cuecas" se lembre de onde vem essa expressão.