Não há, caro leitor, melhor país que Portugal para se ficar fechado fora de casa. Declaro-o sem qualquer leviandade - estou inteiramente ciente do peso desta afirmação e integralmente preparado para a defender com base apenas nos factos.
Digo-o porque não há outro lugar no mundo em que, ficando-se preso fora de casa já depois das onze da noite, no silêncio de uma aldeia minhota, sem carteira, telemóvel, ou chaves do carro, a vizinha do lado esteja ainda acordada e nos abra a porta. Ou, mesmo que haja, essa hipotética vizinha num hipotético país certamente não terá feito a matança do porco nessa tarde. Ou, supondo nós que isto podia acontecer num outro país qualquer, a vizinha não se lembraria de um serralheiro que, já estando deitado, se levantaria, dispor-se-ia a trepar o muro e nos abriria a porta, recusando-se a receber pagamento.
Dirá agora o leitor que conhece bem o país X, e que decerto o país X tem também gente boa que faz a matança do porco e acolhe os vizinhos, que o país X tem também serralheiros que se movem pela bondade, e que eu exagero. Ao que eu respondo: tudo isso poderá ser verdade, mas no país X a vizinha não nos dá rojões e batatas para fritar, nem febras para o almoço, nem nos faz prometer que voltaremos no dia seguinte para testemunhar o enchimento dos chouriços, chouriças, chouriças de sangue, chouriças de massa e chouriças de ossos.
Concluindo, caro leitor, muito nos podemos queixar do nosso país, e com certeza razões para isso haverá, mas que fique bem assente que não há melhor sítio que Portugal para ficar preso fora de casa.